DESENVOLVIMENTO FÍSICO

       Ao fim do 2° ano, o crescimento somático e cerebral diminui, com reduções correspondentes das necessidades nutricionais e do apetite. Entre 2 e 5 anos de idade, a criança média ganha aproximadamente 2kg de peso e de 6 a 7cm de estatura por ano. O abdome proeminente do lactente tende a se achatar e o corpo torna-se mais esguio, a energia física atinge um pico, e a necessidade de sono diminui para 10 a 13 h/24 h, geralmente incluindo uma sesta. A acuidade visual alcança 20/30 com 3 anos de idade e 20/20 com 4 anos. Todos os 20 dentes primários já nasceram com 3 anos de idade.

         A maioria das crianças caminha com uma marcha madura e corre com equilíbrio antes do fim do 3º ano. Além desse nível básico, há uma ampla variação na capacidade conforme a gama de atividades motoras se expande para incluir arremessar, pegar e chutar bolas; andar de bicicleta; escalar estruturas no playground; dançar; e outros comportamentos de padrão complexo. Os efeitos dessas diferenças individuais sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional dependem em parte das demandas do ambiente social. Crianças energéticas e coordenadas podem desenvolver-se emocionalmente com pais que incentivam a atividade física; crianças de menor energia e mais cerebrais podem desenvolver-se com pais que valorizam brincadeiras calmas. O uso preferencial de uma mão geralmente é estabelecido no 3º ano. O controle do intestino e da bexiga surge durante esse período (média de idade de 30 meses, com grande variação individual e cultural). O controle diurno da bexiga precede tipicamente o controle intestinal, e as meninas precedem os meninos neste controle. Não Ter controle urinário no sono é normal até 4 anos de idade em meninas, e até 5 anos em meninos. Muitas crianças dominam o uso do banheiro facilmente. Para outras, o treinamento no uso do banheiro envolve uma luta prolongada pelo poder. A recusa em defecar no vaso sanitário ou penico é relativamente comum e pode acarretar constipação na criança e frustração nos pais. A diluição da questão por uma suspensão temporária do treinamento (e retorno ás fraldas) muitas vezes permite que a conquista do uso do banheiro prossiga.

         IMPLICAÇÕES. A diminuição normal do apetite nessa idade freqüentemente desperta preocupação sobre nutrição. Na maioria das vezes, se o crescimento é normal, a ingestão da criança é adequada. As crianças normalmente modulam sua ingestão alimentar para atender às suas necessidades somáticas de acordo com sensações de fome ou saciedade.. A ingestão diária flutua, ás vezes muito, mas a ingestão durante o período de uma semana é relativamente estável Crianças muito ativas, com precocidade motora, enfrentam maiores riscos de lesão. Os pais destas crianças beneficiam-se de orientação precoce sobre a necessidade de tornar a casa à prova de acidentes, de supervisão constante e do uso de capacete ao andar de bicicleta (começando com o triciclo).

 

DESENVOLVIMENTO:LINGUAGEM,COGNIÇÃO E BRINCADEIRAS-2-5 ANOS

LINGUAGEM, COGNIÇÃO E BRINCADEIRAS

        Esses três domínios envolvem a função simbólica, uma forma de lidar com o mundo que emerge durante o período pré-escolar.

         LINGUAGEM. O desenvolvimento da linguagem se dá mais rapidamente entre 2 e 5 anos de idade. O vocabulário aumenta de 50-100 palavras para mais de 2000. A estrutura das frases avança de sentenças telegráficas (“exclamação de bebê”) a frases que incorporam todos os principais componentes gramaticais. Como regra prática, entre 2 e 5 anos de idade, o número de palavras em uma frase típica é igual “a idade da criança (2 com 2 anos, 3 com 3 anos etc.). A maioria das crianças, ao atingir 2,5 anos de idade, emprega pronomes possessivos (“minha bola”), verbos freqüentativos (no gerúndio, como “estou brincando”), perguntas e negativas. Com 4 anos elas contam até 4 e usam verbos no passado; com 5 anos, usam verbos no tempo futuro. Uma importante aquisição é entre a fala, a produção de sons inteligíveis, e a linguagem, o ato mental subjacente. A linguagem inclui as funções expressiva e receptiva. A linguagem receptiva (compreensão) varia menos na sua taxa de aquisição que a linguagem expressiva e, portanto, tem maior importância para o prognóstico. A aquisição da linguagem depende criticamente dos estímulos ambientais. Os determinantes fundamentais incluem a quantidade e a variedade da fala dirigida às crianças e a freqüência na qual os adultos lhes fazem perguntas e incentivam sua verbalização. Os maus-tratos e a negligência infantis correlacionam-se com o atraso da linguagem, em particular a capacidade de transmitir estados emocionais. A linguagem também permite que as crianças expressem sentimentos, como ódio ou frustração. O desenvolvimento da linguagem pré-escolar lança os alicerces do sucesso subseqüente na escola. Através da exposição inicial repetida a palavras escritas, as crianças aprendem sobre os usos da escrita (contar histórias ou enviar mensagens) e sobre sua forma (da esquerda para a direita, de cima para baixo).

         Os livros ilustrados desempenham um papel especial não apenas na familiarização das crianças pequenas com a palavra impressa, mas também no desenvolvimento da linguagem verbal. A leitura em voz alta com uma criança pequena é um processo interativo no qual o genitor concentra a atenção do filho em uma determinada figura, solicita uma resposta (perguntando “o que é isso?”) e depois fornece o feedback para a criança com aprovação (“certo, é um cachorro”).

         COGNIÇÃO. O período pré-escolar corresponde ao estágio pré-operacional (pré-lógico) de Piaget, caracterizado por pensamento mágico, egocentrismo e pensamento dominado pela percepção. O pensamento mágico inclui uma confusão da coincidência com causalidade, animismo (atribuindo motivações a objetos inanimados e eventos) e crenças irreais sobre o poder dos desejos. O egocentrismo refere-se à incapacidade da criança de considerar o ponto de vista de outra pessoa e não indica egoísmo.

         BRINCADEIRAS. Durante o período pré-escolar, as brincadeiras caracterizam-se por complexidade e imaginação crescentes, desde roteiro simples reproduzindo experiências comuns como fazer compras e colocar o bebê para dormir (2 ou 3 anos) a cenários mais extensos envolvendo eventos singulares como ir ao zoológico ou viajar (3 ou 4 anos) até a criação de cenários que foram apenas imaginados, como voar até a lua (4 ou 5 anos). Uma progressão semelhante na socialização passa da interação social mínima com colegas durante brincadeiras (brincadeiras isoladas ou paralelas, 1 ou 2 anos) para brincadeiras cooperativas como construir uma torre de blocos juntos (3 ou 4 anos) até brincadeiras em grupo organizadas, com atribuição de papéis distintos, como ao brincar de casinha. A brincadeira também torna-se cada vez mais governada por regras. As brincadeiras permitem que as crianças representem o domínio. A criatividade, inerente em todas as brincadeiras, é especialmente evidente nos desenhos, pinturas e outras atividades artísticas. Os temas e as emoções que surgem nos desenhos de uma criança com freqüência refletem as questões emocionais mais importantes para ela. O pensamento moral espelha e é contido pelo nível cognitivo da criança. Respostas empáticas ao sofrimento dos outros surgem durante o 2º ano de vida, porém a capacidade de considerar cognitivamente o ponto de vista de outra criança permanece limitada durante todo o período pré-escolar.

         IMPLICAÇÕES. A importância da linguagem como um alvo para a avaliação e intervenção é muito grande devido ao seu papel central como um indicador do desenvolvimento cognitivo e emocional e como um fator fundamental na regulação comportamental e posterior sucesso escolar. Os pais podem apoiar o desenvolvimento emocional empregando palavras que descrevem os estados de sentimento da criança (“você parece zangado agora”) e usando as palavras da criança para expressar sentimentos, em lugar de atuar sobre eles. Os pais devem ter um horário regular diário para ler ou folhear livros com os filhos.

 

 

DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL- 2-5 ANOS

DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL

         Os desafios emocionais que as crianças pré-escolares enfrentam incluem a aceitação de limites enquanto mantêm um senso de auto-direção, controle de impulsos agressivos e interação com um círculo crescente de adultos e crianças da mesma idade. Com 2 anos de idade, os limites comportamentais são predominantemente externos; com 5 anos, esses controles precisam ser interiorizados para que a criança funcione em uma sala de aula típica. O sucesso no alcance desse objetivo baseia-se no desenvolvimento emocional prévio, particularmente a capacidade de usar imagens interiorizadas de adultos confiáveis para fornecer segurança em momentos de estresse. As crianças precisam considerar-se dignas de aprovação do adulto para desejar busca-la.

         As crianças aprendem quais comportamentos são aceitáveis e quanto poder tais comportamentos exercem sobre adultos importantes através do teste de limites. O teste aumenta quando produz uma quantidade excepcional de atenção, ainda que esta atenção freqüentemente seja negativa, e quando os limites são inconsistentes. O teste freqüentemente desperta o ódio dos pais ou uma solicitude imprópria.

         O controle é uma questão central. A incapacidade de controlar algum aspecto do mundo externo, como o que comprar ou quando sair, muitas vezes resulta em perda do controle interno, isto é, um acesso de fúria. Medo, cansaço excessivo ou desconforto físico também podem despertar acessos de fúria. Tais acessos normalmente surgem no final do primeiro ano de vida e têm prevalência máxima entre 2 e 4 anos. Episódios freqüentes após 5 anos tendem a persistir durante toda a segunda infância.

         Crianças pré-escolares normalmente cultivam sentimentos complicados em relação a seus pais: amor e ciúme intensos e ressentimento e medo de que os sentimentos de ódio possam levar ao abandono. A resolução dessa crise, um processo que dura anos, envolve a decisão silenciosa da criança de seguir o exemplo dos pais em vez de competir com eles.

         A curiosidade sobre a genitália e os órgãos genitais dos adultos é normal, assim como masturbação. O pudor surge gradualmente entre 4 e 6 anos, com amplas variações entre culturas e famílias.

         IMPLICAÇÕES.  

A maioria dos pais considera difícil compreender seu filhos pré-escolares ao menos alguma parte do tempo. Rápidas mudanças entre dependência apegada e independência desafiadora, entre uma linguagem que soa sofisticada e o desamparo infantil, e entre alegria angelical e ódio incontrolável podem destruir a auto-confiança e a paciência dos pais. A orientação que enfatiza expectativas apropriadas para o desenvolvimento comportamental e emocional e que reconhece sentimentos normais de ódio, culpa e confusão por parte dos pais pode ajudar a diminuir suas preocupação com os filhos e consigo mesmo.

          Pode ser difícil decidir se o comportamento de uma determinada criança é normalmente desafiador ou indicativo de um problema real. Os sinais de alerta inclui pais que não fazem quaisquer declarações positivas voluntariamente sobre os seus filhos, evidências de uma disciplina ameaçadora ou excessivamente punitiva e a existência de problemas (principalmente acessos de fúria na creche ou no jardim-de-infância, no qual a maioria dos pré-escolares consegue manter autocontrole). A existência de problemas médicos crônicos, atrasos do desenvolvimento ou um estresse familiar incomum indica a necessidade de avaliação mais detalhada.

         O castigo físico é aceito em muitas culturas tradicionais, mas é impróprio no contexto moderno em que a maioria das famílias vive. As crianças imitam a punição corporal que recebem, não sendo incomum que as crianças pré-escolares batam de volta em seus pais. Os pais podem ser ajudados a abandonar definitivamente o castigo físico ou, devem ao menos reservá-los para circunstâncias extremas e excepcionais ( medida advogada por poucos profissionais mais conservadores) ???? Os pais devem substituir estes castigos físicos por  técnicas de disciplina mais eficazes, incluindo o estabelecimento consistente de limites, comunicação clara e aprovação freqüente. Períodos de castigo com duração aproximada de 1 minuto por ano de idade é uma forma de punição não-corporal fundamentada em extensas pesquisas.  

 

Fonte: Nelson Textbook of Pediatrics.